“Ser quem sou passa por ser capaz de criar ligações ao outro,
com o outro e para o outro.
Só há pessoas porque há relações.
A minha existência é constituída pelos caminhos que sonho,
construo e percorro, ao lado de outras pessoas que, como eu,
sonham, constroem e percorrem os seus caminhos.
Vontades distintas, dinâmica comum.
Seguimos, cada um pelos seus princípios, cada um para os seus fins.
O amor leva o ser do seu autor ao ser do que é amado.
Amar é ser e ser é amar.
Partilhar-se com o outro e com o mundo, num milagre de multiplicação
em que quanto mais se dá, mais se tem para dar, mais se é.
Um pequeno erro na base leva a potenciais tragédias nas conclusões.
Há quem parta do princípio que o amor é recíproco.
Ora, essa ideia simples acaba por ser origem de enormes tragédias pessoais.
O amor não é recíproco, é pessoal, nasce no mais íntimo da nossa identidade.
Não é metade de nada, é um todo.
Precisa do outro como fim, não como princípio.
O amor é bondade generosa.
É dar o bem. Dar-se.
Conseguir ser fonte de amor é o maior dos bens que se pode alcançar.
Sonhar, criar e lutar pela felicidade do outro é, por si mesmo, a maior
de todas as recompensas.
Claro, muitos desistem assim que o primeiro espinho se crava na
planta dos pés...
O valor de alguém não depende do que lhe dão ou tem, mas do que é.
O outro pode inspirar-me, mas a minha felicidade passa pelo que sou
capaz de lhe dar… e não pelo que posso ou quero receber.
Criamos relações, construímos pontes, para não sermos ilhas.
A nossa verdadeira comunhão é mais profunda.
As águas separam o mais evidente do que somos, mas o fundo
é o mesmo, como se fossemos montes de uma mesma cordilheira
e o mar tivesse inundado os vales.
O caminho de descoberta passa por se ser capaz de chegar ao íntimo…
de si mesmo, do outro e do mundo. Por se dar conta de que, afinal,
no fundo do ser, a nossa matriz é comum.
Os outros são eus e eu sou o seu outro.
Não é bom estar só. A solidão anula o ser.
O amor une o que é, na essência, da mesma natureza.
Resulta da liberdade e responsabilidade absolutas.
Implica a capacidade de criar uma vida sem intervalos.
Nenhum mal perdura no tempo, porque a destruição se destrói a si mesma.
Só o bem é eterno. Porque se cria e renova a cada momento.
O que sou depende dos princípios que me movem e dos fins para os quais
a minha vontade tende. Serei o que escolher ser dentro de um conjunto de
determinações que me ultrapassam, mas que em ponto algum limitam a
minha liberdade e a minha responsabilidade.
Vivemos uns com os outros, seguimos juntos no espaço e no tempo...
escolhemos depois estar mais perto ou mais longe dos íntimos uns
dos outros. Ninguém nasce de si mesmo e o ser humano, sendo o mais
perfeito ser terrestre, é também o mais carente.
Precisamos muito uns dos outros.
Não é possível ser feliz sem os outros, menos ainda contra os outros.
A cada instante, tudo muda, mesmo quando toda a gente quer que
continue na mesma.
As decisões devem renovar-se a cada passo, o amor deve encontrar
forma de se fazer real a cada dia, sob pena de passar, e nós, passando
com ele… nos fazermos apenas passado.
Longe de fechar, o amor abre aquele que ama ao outro, tornando-o
protagonista da criação.
Cada um de nós está projetado para fora de si, para os outros, para
este mundo e para o céu.
A nossa dignidade é tanto maior quanto mais aberto estiver o nosso
coração... para dar.
Preciso do infinito para ser eu.”
(José Luís Nunes Martins, in 'Amor, Silêncios e Tempestades')
[Portugal, n. 1971 / Filósofo]
Vamos conversar sobre o cotidiano, conflitos, problemas emocionais e interesses sociais... a Vida
domingo, 30 de novembro de 2014
sábado, 29 de novembro de 2014
NÃO NOS ESQUEÇAMOS...
“Mas a criatura, quase sempre, cai é pelo óbvio.
É óbvio, mas a gente se esquece.
Então, uma fraterna lembrança em torno dos
nossos deveres imediatos nunca é demais.”
(Chico Xavier)
É óbvio, mas a gente se esquece.
Então, uma fraterna lembrança em torno dos
nossos deveres imediatos nunca é demais.”
(Chico Xavier)
sexta-feira, 28 de novembro de 2014
A MUDANÇA SÓ SE DÁ NA CONTINUIDADE
"Dirigirmo-nos a alguém com a missão de que se transforme noutro,
é irmos com a embaixada de que ele deixe de ser ele.
Cada qual defende a sua personalidade, e só aceita uma mudança na
sua maneira de pensar ou de sentir, na medida em que esta alteração
possa entrar na unidade do seu espírito e enredar-se na sua continuidade;
na medida em que essa mudança se puder harmonizar e se conseguir
integrar com tudo o resto da sua maneira de ser, pensar e sentir, e possa,
por outro lado, enlaçar-se nas suas recordações.
Nem a um homem, nem a um povo - que, em certo sentido, também é
um homem - se pode exigir uma mudança, que desfaça a unidade e a
continuidade da sua pessoa.
Pode-se mudá-lo muito, quase até por completo; mas sempre, dentro
da continuidade.
É certo que, em certos indivíduos, acontece aquilo a que se chama
mudança de personalidade; mas isso é um caso patológico, e é como
tal que os psiquiatras o estudam.
Nessas alterações de personalidade, a memória, base da consciência,
arruína-se por completo e, ao pobre paciente, só resta, como substrato
de continuidade individual - já que não pessoal -, o organismo físico.
Tal enfermidade equivale à morte para o sujeito que dela padece; para
os que não equivale à sua morte é para os seus herdeiros, se tiver bens
de fortuna: e essa enfermidade não é senão uma revolução, uma
verdadeira revolução."
(Miguel de Unamuno, in 'Do Sentimento Trágico da Vida')
é irmos com a embaixada de que ele deixe de ser ele.
Cada qual defende a sua personalidade, e só aceita uma mudança na
sua maneira de pensar ou de sentir, na medida em que esta alteração
possa entrar na unidade do seu espírito e enredar-se na sua continuidade;
na medida em que essa mudança se puder harmonizar e se conseguir
integrar com tudo o resto da sua maneira de ser, pensar e sentir, e possa,
por outro lado, enlaçar-se nas suas recordações.
Nem a um homem, nem a um povo - que, em certo sentido, também é
um homem - se pode exigir uma mudança, que desfaça a unidade e a
continuidade da sua pessoa.
Pode-se mudá-lo muito, quase até por completo; mas sempre, dentro
da continuidade.
É certo que, em certos indivíduos, acontece aquilo a que se chama
mudança de personalidade; mas isso é um caso patológico, e é como
tal que os psiquiatras o estudam.
Nessas alterações de personalidade, a memória, base da consciência,
arruína-se por completo e, ao pobre paciente, só resta, como substrato
de continuidade individual - já que não pessoal -, o organismo físico.
Tal enfermidade equivale à morte para o sujeito que dela padece; para
os que não equivale à sua morte é para os seus herdeiros, se tiver bens
de fortuna: e essa enfermidade não é senão uma revolução, uma
verdadeira revolução."
(Miguel de Unamuno, in 'Do Sentimento Trágico da Vida')
quinta-feira, 27 de novembro de 2014
ESCOLHER A FELICIDADE
“Nem paz nem felicidade se recebem dos outros nem aos outros se dão.
Está-se aqui tão sozinho como no nascer e no morrer; como de um modo
geral no viver, em que a única companhia possível é a daquele Deus a um
tempo imanente e transcendente e a dos que neles estão, a de seus santos.
Felicidade ou paz nós as construímos ou destruímos: aqui o nosso
livre-arbítrio supera a fatalidade do mundo físico e do mundo do proceder
e toda a experiência que vamos fazendo, negativa mesmo para todos, a
podemos transformar em positiva.
Para o fazermos, se exige pouco, mas um pouco que é na realidade
extremamente difícil e que não atingiremos nunca por nossas próprias
forças: exige-se de nós, primacialmente, a humildade; a gratidão pelo que
vem, como a de um ginasta pelo seu aparelho de exercício; a firmeza e a
serenidade do capitão de navio em sua ponte, sabendo que o ata ao leme
não a vontade de um rei, como nos Descobrimentos, mas a vontade de um
rei de reis, revelada num servidor de servidores; finalmente, o entregar-se
como uma criança a quem sabe o caminho.
De qualquer forma, no fundo de tudo, o que há é um ato de decisão
individual, um ato de escolha; posso ser, se tal me agradar, infeliz e inquieto.”
(Agostinho da Silva, in 'Textos e Ensaios Filosóficos')
Está-se aqui tão sozinho como no nascer e no morrer; como de um modo
geral no viver, em que a única companhia possível é a daquele Deus a um
tempo imanente e transcendente e a dos que neles estão, a de seus santos.
Felicidade ou paz nós as construímos ou destruímos: aqui o nosso
livre-arbítrio supera a fatalidade do mundo físico e do mundo do proceder
e toda a experiência que vamos fazendo, negativa mesmo para todos, a
podemos transformar em positiva.
Para o fazermos, se exige pouco, mas um pouco que é na realidade
extremamente difícil e que não atingiremos nunca por nossas próprias
forças: exige-se de nós, primacialmente, a humildade; a gratidão pelo que
vem, como a de um ginasta pelo seu aparelho de exercício; a firmeza e a
serenidade do capitão de navio em sua ponte, sabendo que o ata ao leme
não a vontade de um rei, como nos Descobrimentos, mas a vontade de um
rei de reis, revelada num servidor de servidores; finalmente, o entregar-se
como uma criança a quem sabe o caminho.
De qualquer forma, no fundo de tudo, o que há é um ato de decisão
individual, um ato de escolha; posso ser, se tal me agradar, infeliz e inquieto.”
(Agostinho da Silva, in 'Textos e Ensaios Filosóficos')
quarta-feira, 26 de novembro de 2014
A VIDA É FRUTO...
“A vida é fruto da decisão de cada momento.
Talvez seja por isso, que a ideia de plantio
seja tão reveladora sobre a arte de viver.”
(Padre Fábio de Melo)
Talvez seja por isso, que a ideia de plantio
seja tão reveladora sobre a arte de viver.”
(Padre Fábio de Melo)
terça-feira, 25 de novembro de 2014
DEPOIS DE CHORAR
"Não é a tristeza que nos faz chorar, mas o amor que enfrenta os vazios.
As angústias e desesperos são expressões de falta.
As lágrimas que de nós brotam e caem longe do olhar dos outros são as
que mais força trazem em si, as que fazem concreto e objetivo o sentir
mais íntimo.
Por vezes, o coração cai nas armadilhas das tristezas antigas... outras,
sentimos os espinhos das novas adversidades cravarem-se-nos na carne.
Há sempre tristezas, há sempre sofrimento, haverá sempre dor enquanto
houver amor.
As lágrimas não choradas não deixam de ser amargas, mas essas, ao
contrário das que nascem, corroem o interior de quem com elas não
chega a regar a terra que lhe segura os pés.
A vida faz-se também com as nossas lágrimas e vence-se, muitas vezes,
de olhos carregados de mar.
O esforço que nos é exigido chega quase a ser impossível sem lágrimas.
Chorar não é sinal de derrota, antes sim de um amor que busca a paz
merecida.
O sentido da vida cabe dentro de uma gota de água salgada…
a verdadeira paixão é a dor máxima do amor mais profundo.
Aquele que faz germinar em nós o melhor... diante do pior.
Depois das lágrimas é tempo de agir.
As lágrimas, tal como tudo nesta vida, têm um princípio e um fim.
O amor não. Vive inteiro, em cada momento, do qual é o princípio e o fim."
(José Luís Nunes Martins, in 'Amor, Silêncios e Tempestades')
As angústias e desesperos são expressões de falta.
As lágrimas que de nós brotam e caem longe do olhar dos outros são as
que mais força trazem em si, as que fazem concreto e objetivo o sentir
mais íntimo.
Por vezes, o coração cai nas armadilhas das tristezas antigas... outras,
sentimos os espinhos das novas adversidades cravarem-se-nos na carne.
Há sempre tristezas, há sempre sofrimento, haverá sempre dor enquanto
houver amor.
As lágrimas não choradas não deixam de ser amargas, mas essas, ao
contrário das que nascem, corroem o interior de quem com elas não
chega a regar a terra que lhe segura os pés.
A vida faz-se também com as nossas lágrimas e vence-se, muitas vezes,
de olhos carregados de mar.
O esforço que nos é exigido chega quase a ser impossível sem lágrimas.
Chorar não é sinal de derrota, antes sim de um amor que busca a paz
merecida.
O sentido da vida cabe dentro de uma gota de água salgada…
a verdadeira paixão é a dor máxima do amor mais profundo.
Aquele que faz germinar em nós o melhor... diante do pior.
Depois das lágrimas é tempo de agir.
As lágrimas, tal como tudo nesta vida, têm um princípio e um fim.
O amor não. Vive inteiro, em cada momento, do qual é o princípio e o fim."
(José Luís Nunes Martins, in 'Amor, Silêncios e Tempestades')
segunda-feira, 24 de novembro de 2014
NÃO CONFUNDAS O AMOR COM O DELÍRIO DA POSSE
“Não confundas o amor com o delírio da posse, que acarreta os
piores sofrimentos.
Porque, contrariamente à opinião comum, o amor não faz sofrer.
O instinto de propriedade, que é o contrário do amor, esse é que
faz sofrer.
Por eu amar a Deus, meto-me a pé pela estrada fora, coxeando
penosamente para o levar aos outros homens.
E não reduzo o meu Deus à escravatura.
E sou alimentado com o que ele dá a outros.
Eu sei assim reconhecer aquele que ama verdadeiramente: é que
ele não pode ser prejudicado.
O amor verdadeiro começa lá onde não se espera mais nada em troca.”
(Antoine de Saint-Exupéry, in "Cidadela")
piores sofrimentos.
Porque, contrariamente à opinião comum, o amor não faz sofrer.
O instinto de propriedade, que é o contrário do amor, esse é que
faz sofrer.
Por eu amar a Deus, meto-me a pé pela estrada fora, coxeando
penosamente para o levar aos outros homens.
E não reduzo o meu Deus à escravatura.
E sou alimentado com o que ele dá a outros.
Eu sei assim reconhecer aquele que ama verdadeiramente: é que
ele não pode ser prejudicado.
O amor verdadeiro começa lá onde não se espera mais nada em troca.”
(Antoine de Saint-Exupéry, in "Cidadela")
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